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Recife, 10 de fevereiro de 2020

Em discurso na Alepe, Priscila Krause homenageia centenário de João Cabral de Melo Neto

Foto: Mariana Carvalho

Discurso da deputada Priscila Krause em comemoração ao centenário de João Cabral de Melo Neto, transcorrido em nove de janeiro de dois mil e vinte

O ano que se inicia traz consigo uma série de expectativas, desafios e esperança. Além de um novo período que nos anima e desafia, é também um ciclo especialmente tocante a todos nós pernambucanos, sempre muito ciosos das nossas tradições, zelosos por todos aqueles que construíram para além das nossas fronteiras a nossa legítima e, modéstia à parte, incomparável configuração cultural. Dois mil e vinte é o ano estadual do poeta João Cabral de Melo Neto!

Subir a essa tribuna quase um mês após a data exata do seu centésimo aniversário, comemorado no último dia nove de janeiro, não é apenas uma obrigação como parte do ofício de representação parlamentar desse estado marcado pelas letras fortes e inquebrantáveis de João Cabral.

É mais: trata-se de um compromisso que honrosamente desempenho como membro deste Poder Legislativo, poder esse que sancionou a lei dezesseis mil quinhentos e oitenta e oito, no mês de junho passado, de nossa propositura, registrando no calendário oficial do estado este dois mil e vinte como o ano estadual do poeta João Cabral de Melo Neto. Cabe a nós, sem dúvidas, participarmos dessa comemoração.

Passear pela vida e obra de João Cabral renderia discursos sucessivos que não caberiam no tempo regimental, denso é o seu legado literário, com significativo conteúdo social.

Nessa missão, fiz como guia o brilhante caderno especial produzido pelo Jornal do Commercio e publicado no primeiro domingo do ano sob o título “Cem anos – João Cabral”. A respeito desse valoroso trabalho de pesquisa, encaminhamos requerimento de voto de aplauso desta Casa parlamentar ao jornal e sua equipe, afinal de contas, disseminar as suas palavras é por si só, homenagem singela, mas fundamental e relevante.

Nascido às margens do Rio Capibaribe, aqui no bairro da Jaqueira, em nove de janeiro de mil novecentos e vinte, por exigência do avô materno, que fazia questão que seus netos ali nascessem,  seguiu ainda bebê, aos dois meses, para o engenho do pai, em São Lourenço da Mata.

Daí até os seus vinte anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro, revezou sua morada entre a capital e o mundo rural, em São Lourenço e Moreno, quando colheu experiências que mais tarde lhe permitiram celebrar Pernambuco e sua gente equilibrando-se entre a sutileza de linguagem e a força temática.

Não voltaria a morar em Pernambuco, mas Pernambuco, por óbvio, jamais sairia de si.

João Cabral foi também um cidadão do mundo. Dos setenta e nove anos de vida, trinta fora passados servindo ao Brasil no exterior. A diplomacia influenciou diretamente a forma de enxergar o mundo e, na arte palavras, através de sua cautela, uma verdadeira engenharia na escolha de cada uma delas.

Ao todo, serviu em nove países: França, Suíça, Portugal, Inglaterra, Senegal, Paraguai, Equador, Honduras e, especial destaque, Espanha. Entre idas e vindas, passou treze anos no país ibérico, vivência que deixou amizades marcantes, como a com o pintor Joan Miró, e marcas indeléveis em sua identidade cultural, vinculada especificamente com a terra de Cervantes, a Andaluzia, como retratado no último livro de sua biografia, publicado em mil novecentos e noventa e sete.

O livro “Entre o Sertão e Sevilha” revela as influências dessas terras díspares na construção biográfica e literária da obra cabralina.

Escrever é estar no extremo de si mesmo”, registrou João Cabral numa de suas icônicas frases. Do esmero com os versos e a desconfiança ao sentimentalismo exacerbado nascia a alcunha de poeta engenheiro. Para Vinícius de Moraes, poeta diamante. Denso como uma pedra!

O ato de escrever era comparado por João Cabral ao de um cozinheiro selecionando grãos de feijão, como escreveu: “catar feijão se limita com escrever: jogam-se os grãos na água do alguidar/e as palavras na folha de papel/e depois, joga-se fora o que boiar”.

Pouco afinada com o que seria o restante de sua produção, estreou na literatura em mil novecentos e quarenta e dois com a obra “A Pedra do Sono”. Tratava-se de trabalho influenciado pela escola surrealista. Aquele tempo, entendia que o regionalismo deveria curvar-se ao universalismo. Em carta a Drummond de Andrade, pouco depois, admitiu que não era aquela poesia que queria escrever.

O menino da Zona Rural pernambucana, o menino dos engenhos, buscava a identificação de sua poesia com a realidade que viveu.

Mais tarde, em mil novecentos e setenta e quatro, em entrevista à TV Cultura, explicou sua necessidade de retratar o real: “tanto o poeta quanto o prosador é responsável diante do resto da humanidade pelo que diz. Portanto, tenho a impressão que, para o sujeito que nasceu com a aptidão de usar as palavras, a primeira obrigação dele é dizer a verdade”.

E foi a relação com a verdade o que fez a poesia de João Cabral de Melo Neto imortal. Ainda que escritas há sessenta, setenta anos, são palavras que guardam perene consonância com trechos das vidas de muitos ainda hoje.

Morando em Barcelona, leu um artigo dando conta que a expectativa de vida do pernambucano, aquele tempo, era de vinte e nove anos. Espantado, sentiu que chegara a hora de redirecionar sua literatura para sublinhar a questão social.

Chama atenção a presciência de João Cabral sobre um Nordeste que se faz contemporâneo ainda hoje.

Na mesma entrevista à TV Cultura, em setenta e quatro, ele definia o seu intuito: “eu gostaria de fazer uma poesia que não fosse um carro deslizando num pavimento de asfalto, aquela coisa lisa. Mas uma poesia em que o leitor, esse leitor sendo o carro, passasse em cima de uma rua muito mal calçada e que o carro fosse sacolejado a todo momento”.

Morte e Vida Severina, um Auto Pernambucano, é considerado sua obra-prima. Publicado em mil novecentos e cinquenta e cinco por sugestão da escritora e dramaturga Maria Clara Machado, exemplifica a habilidade de João Cabral em transpor elementos da realidade social dando voz aos indivíduos invisíveis por meio da poesia.

Considerado um dos seus trabalhos menos pretensiosos, de linguagem acessível, contou ao mundo a história de Severino, retirante sertanejo que segue o caminho do Rio Capibaribe em busca de dias melhores na capital. Teatralizado em si, já que nascera como auto, ganhou os palcos nacionais e internacionais por décadas seguidas, em releituras diversas, popularizando de vez o nome do pernambucano no panteão dos poetas modernistas brasileiros.

O Rio Capibaribe é, também em Morte Vida Severina, elemento notável da escrita de João Cabral, como nesse trecho: “pensei que seguindo o rio eu jamais me perderia: ele é o caminho mais certo, de todo o melhor guia/ mas como segui-lo agora que interrompe a descida?/ vejo que o capibaribe, como os rios lá de cima, é tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina”.

A força do Rio no imaginário da cultura pernambucana se deve em significativa parcela ao papel que tais leitos ganharam na poesia cabralina.

Se ora protagoniza como um marco da nossa paisagem, ora como símbolo da precariedade da população, o fato é que as tantas horas passadas pelo menino João Cabral diante do Rio, depois chamado por ele de mestre e professor, foram de fato uma fonte de aprendizado.

De acordo com a filha Inez, um dos cinco dos herdeiros poeta, “o Capibaribe era o cordão umbilical que o ligava ao sertão”.

Nesse contexto, cabe rememorar dois de seus mais famosos poemas que tem o Capibaribe como elemento central: em cão sem plumas, escreveu: “aquele rio/jamais se abre aos peixes/ao brilho/à inquietação de faca/que há nos peixes/jamais se abre em peixes”. Em “o rio”, por sua vez, é o próprio Capibaribe que narra o seu caminho: “para o mar vou descendo/por essa estrada da ribeira/a terra vou deixando/de minha infância primeira”.

Retornando do mundo das palavras à nossa vida real, às formas como podemos render loas ao poeta centenário, solicito à presidência da Casa atenção ao nosso projeto de resolução desarquivado número dezessete meia um, de dois mil e dezessete, que institui no âmbito desta Assembleia Legislativa o prêmio Rio Capibaribe – poeta João Cabral de Melo Neto, com o intuito de premiar pessoas físicas, jurídicas, entidades governamentais e ONGs destacadamente defensores da recuperação e preservação do Rio Capibaribe.

Sem dúvidas, o prêmio intitulado pelo nome do poeta seria mais uma ação a gravar a relevância do rio Capibaribe na obra de  Cabral por um lado, e a necessidade de tomarmos para nós essa missão de abraçar o Rio cada vez mais poluído e marginalizado.

Para concluir, é nosso dever, como pernambucanos que somos, representantes de outros milhões que aqui nos outorgaram sua voz, levantar especialmente nesse ano, pelos quatro cantos do estado, o nome de João Cabral de Melo Neto.

Certa vez, conta o especial do Jornal do Commercio, um amigo foi visitá-lo em seu apartamento localizado de frente para a Baía de Guanabara. As cortinas estavam fechadas. Quando questionado, João Cabral respondeu: “deslumbrante, na verdade, é poder estar numa varanda com vista para um canavial.” Se houvesse uma guerra civil, disse em outra oportunidade, certamente lutaria por Pernambuco!

Como escrito por Gustavo Krause em artigo publicado no dia dez de janeiro recente, também no JC, cujo inteiro teor solicitei através de requerimento que fosse registrado nos anais dessa casa, tudo o que se disser sobre João Cabral de Melo Neto é pouco.

Muito obrigada

 

Postado por Priscila Krause às 16:43:10
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