Recife, 22 de janeiro de 2012

Recife tem Instituto Arqueológico mais antigo do País. IAHGP completa 150 anos no próximo dia 28

Do Jornal do Commercio, Cidades, 22/01/2012:

No próximo sábado, o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP) completa 150 anos de atividades ininterruptas. A entidade, fundada em 28 de janeiro de 1862, é uma das mais antigas associações culturais brasileiras. Em um século e meio de vida, claro, passou por mudanças para acompanhar as transformações naturais do tempo. Chega a 2012 querendo ficar cada vez mais perto da população, usando os recursos da web.

“Houve uma mudança de conceito de sociedade e de história nessa trajetória de 150 anos do Instituto Arqueológico”, avalia o arquiteto José Luiz Mota Menezes, vice-presidente da entidade. O grupo inicial, formado por cinco intelectuais da elite local, criou uma associação baseada na história dos feitos gloriosos, diz ele. “Na época, o maior orgulho dos pernambucanos era ter vencido a guerra contra os holandeses e o instituto contava a história dos dominadores.”

A grande transformação veio com o historiador José Augusto Pereira da Costa (1851-1923), no princípio do século 20, quando ele tirou o foco da história das lutas para ingressar na história da cultura. “Foi um marco nessa mudança de conceito, o instituto se afastou dos cultos gloriosos de origem para se dedicar à pesquisa em documentos”, destaca o arquiteto.

Simpático à abolição da escravatura, o IAHGP começou, então, a se voltar para a sociedade dos dominados. Com isso, assumiu o papel de guardião das bandeiras usadas nos movimentos abolicionistas. Sociedades de defesa dos escravos, como a Avis Liberta, entregaram seus brasões ao instituto, que mantém os objetos em exposição.

No fim do século 19, o historiador José Hygino Duarte Pereira (1847-1901) inaugurou a fase da busca da verdade em documentos, numa viagem aos arquivos da Holanda. “Foi uma mudança coletiva entre os intelectuais. Os holandeses deixaram de ser vistos como inimigos e os pesquisadores começaram a estudar a contribuição cultural que ficou no Brasil.”

José Hygino trouxe para o IAHGP o Atlas Vingboons e 30 volumes de documentos copiados, o maior acervo já visto sobre o período da dominação flamenga (1630-1654). “É um material procurado por pesquisadores da Holanda, porque alguns não existem mais no país”, comenta José Luiz. O atlas é uma raridade da cartografia holandesa no Brasil.

Enquanto José Hygino resgatou documentos, chamados pelos historiadores de fonte primária, o engenheiro e historiador Alfredo de Carvalho (1870-1916) reuniu grande quantidade de livros e panfletos sobre a época dos holandeses. “Infelizmente, por dificuldades financeiras, ele teve de vender a Biblioteca Exótica Brasileira”, lamenta o arquiteto.

O jornalista Mário Melo (1884-1959) também imprimiu seu nome nas transformações ocorridas no IAHGP. “Ele aproximou o instituto da comunidade. A entidade fechada, criada apenas para os intelectuais, se abriu para a massa leitora de jornal, com os escritos de Mário Melo. Do castelo se chegou à praia”, comenta José Luiz.

Com o historiador José Antônio Gonsalves de Mello (1916-2002), o instituto passou a ressaltar os aspectos culturais dos holandeses, independentemente das batalhas. Ficou para trás o culto aos feitos de natureza militar ou de uma ocupação ruim para o País. “José Antônio produziu o melhor texto escrito sobre esse período, com a publicação do livro Tempo dos Flamengos”, observa.

Também se dedicou ao estudo dos judeus que viveram na Rua do Bom Jesus na época dos holandeses e escreveu o livro Gente da Nação. “Ele não fez só a biografia de personagens, é o biógrafo de um tempo”, elogia. O historiador, que presidiu a entidade de 1965 a 1999, abriu uma ponte entre o IAHGP e pesquisadores internacionais.

Sucessor de José Antônio em 2000, José Luiz abriu o IAHGP para o público, compartilhando as informações existentes no prédio de número 130 da Rua do Hospício, na Boa Vista, Centro do Recife. Com ajuda da sócia Maria Cristina Cavalcanti, reformulou o museu. “Ainda precisamos chegar mais perto, usando a web.”. Hoje, o instituto também atende o público pelo endereço www.institutoarqueologico.com.br.

Margarida Cantarelli, atual presidente, projeta para o futuro uma entidade cada vez mais aberta à sociedade. “Queremos que as pessoas possam aproveitar o acervo conservado nesses 150 anos. Diante do mundo novo que vivemos, vamos abrir de forma mais ampla”, declara.

O acesso ao prédio continua precário, por causa do movimento de veículos de carga e descarga na porta do casarão. Mas o museu está aberto a todos, de segunda a sexta das 13h às 17h e aos sábados das 9h às 12h. O ingresso custa R$ 2.

PROGRAMAÇÃO

O instituto histórico estadual mais antigo do País, superado apenas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi criado por sugestão de dom Pedro II, numa visita do imperador ao Recife. Os 150 anos serão celebrados com sessão magna, missa e concerto musical.

A programação tem início às 20h da próxima sexta-feira, no Teatro de Santa Isabel, bairro de Santo Antônio, com a sessão magna: palestra alusiva aos século e meio de existência da associação, seguida de concerto do pianista Marco Caneca.

Sábado, às 10h30, haverá missa na Basílica do Carmo, Centro do Recife, assinalando o lugar de fundação do IAHGP. No domingo, às 17h, está programado concerto da Orquestra do Conservatório Pernambucano de Música, na Igreja da Madre de Deus, Bairro do Recife.

 

Postado por Priscila Krause às 15:37:13
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